quarta-feira, 25 de agosto de 2010

A democracia que se quer





HÉLCIO GOMES CORRÊA


Antes da independência dos Estados Unidos (em 1776) a democracia direta foi recusada como boa forma de governar. A partir dai tivemos recepcionada no mundo adesão crescente ao sistema de decisão coletiva. A democracia com erros e acertos é indispensável na república. Onde ela for incompleta, incompleta estará à cidadania. As falhas da democracia já são conhecidas. E desanimam, mas não invalidam as lutas cívicas e direito de errar coletivamente.
Winston Churchill já dizia que a democracia é o pior regime que existe, afora todos os demais. Nela tudo nos obriga ao aceite de fato, de que ela jamais pode ser completa e que nem por isso se pode querer abandoná-la. Ruim com ela, pior sem ela - tal como amante bonita para quem aprecia viver perigosamente.
É decepcionante no caso político mato-grossense a falta de oposição ao governo estadual. Aqui registra o direito de descrença do eleitorado, que pode até arrefecer da vontade de abstenção, apontada na pesquisa eleitoral (22% de nulos e indecisos, na capital, segundo Gazeta Dados - 2010). O que fica na certeza momentânea é apenas grande desanimo ou desalento. Os eleitores (com ou sem instruções) não acreditam que se possa fazer democracia sem oposição verdadeira. E todos sabem que voto é forma de participação, que por sua vez significa atribuir de poder.
Assim, democracia nada mais é do que outro nome do exercício do bom poder ou do nefasto poder. E que o que começa errado nunca pode terminar certo. Na falta de oposição as pessoas preferem votar em quem já está no poder. Foi assim, na eleição antecessora ao governo do Estado. E tende a continuar, porque a oposição tornou-se camarada e frágil no seu papel de apontar erro ou delinquência cometidos.
Nada mais fácil do que perder de vistas a obrigação oposicionista - quando se está desejoso do poder pelo poder. Enfim, quando a oposição política se torna palavra bonita ou manejável por grupos rivais ou afins.
De forma que a democracia acaba, neste sentido, se confundindo com interesses maiores privados e desviados. É aqui que a gente tem que nutrir esperança forçada de que o sucesso da democracia não está em si na eleição limpa (embora necessária), mas ir de fracasso em fracasso na boa conquista de um futuro incerto.
Aqui falta governo comprometido com o desenvolvimento estratégico ou que tenha capacidade mínima de dilatar a fronteira agrícola. Fazer Mato Grosso mais produtivo ou significativo industrial - além da produção primária. E que pode alterar a perspectiva regional e nacional pelo agronegócio ampliado. Tal como já ocorreu na Califórnia norte-americana.
Aqui resta somente conjunto político (consciente ou inconsciente) fazendo de um tudo para continuar o status político e gerencial público local e jogando tudo na disputa das vagas disponíveis do Senado da República - apenas.
Temos verdadeiramente uma oposição sem identidade, que até parece ter acordo oculto com a situação - já cansada de guerra, que entende quiçá que seja melhor deixar a situação sojicultora e arrogante, porque se repetir aquela pífia atuação administrativa da capital, pode trazer maior dano ao interesse coletivo.
Afinal, a situação administrativa estadual, se notabilizou por perder propostas ou perspectivas de bons desenvolvimentos regionais - além da produção agropastoril tradicional, mas que de fato não trouxe dano maior ou significativo por seu acanhamento ou ignorância prepotente de como fazer avançar a produção das manufaturas alimentícias e outras pela silvicultura, que o mundo almeja comprá-las ao ótimo preço ou consumi-las em qualquer quantidade.
É muito triste viver num Mato Grosso com potencialidade perdida. E com oposição política em qualquer de suas facetas afáveis e hodiernas altamente domesticadas.



HÉLCIO GOMES CORRÊA é advogado e diretor tesoureiro da Associação dos Advogados Trabalhista de Mato Grosso (Aatramat).

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